Juros Elevados, Ajustes Baixos: O Setor da Construção Sente Primeiro

Com crédito caro e confiança em baixa, a construção registra o pior janeiro em quase uma década. Enquanto o setor perde fôlego, Brasília parece achar que cortar gasto é ficção científica.

ECONOMIAPOLÍTICA

Bugiganga News

2/27/20262 min ler

O Brasil começou 2026 com um recado claro vindo do canteiro de obras: a conta chegou. E ela veio com juros compostos.

A indústria da construção registrou 43,1 pontos no índice de atividade em janeiro, o pior resultado para o mês desde 2017. Traduzindo do economês: menos obra, menos emprego, menos investimento. Segundo a Sondagem da Construção da CNI em parceria com a CBIC, o setor está respirando por aparelhos financeiros.

O número de empregados caiu pelo terceiro mês consecutivo. A utilização da capacidade operacional recuou para 64%, o menor patamar em cinco anos. E a confiança? Está há 14 meses abaixo da linha dos 50 pontos. Ou seja: o empresário olha para frente e enxerga neblina.

Mas vamos falar do elefante na sala, ou melhor, da taxa de juros no teto.

Com juros elevados, o crédito fica mais caro. Crédito caro trava investimento. Sem investimento, a obra não sai do papel. E sem obra, o pedreiro não trabalha, o fornecedor não vende, o PIB não gira. É um efeito dominó que começa lá em Brasília e termina no carrinho de mão.

A justificativa é sempre a mesma: controlar a inflação. Mas aqui vai a pergunta que ninguém quer fazer alto demais: por que o ajuste recai quase exclusivamente sobre a taxa de juros, enquanto o gasto público continua intocável?

Se o governo mantém despesas elevadas, estimula a demanda artificialmente e pressiona os preços, o Banco Central reage com juros altos. E quem paga essa guerra institucional? A indústria, o setor produtivo, o emprego.

É como tentar secar o chão com a torneira aberta.

Os próprios dados mostram que, apesar de alguma expectativa ainda levemente positiva para os próximos seis meses, o índice de intenção de investimento caiu novamente. O empresário está cauteloso. E cautela, em economia, costuma ser sinônimo de freio.

A construção civil é um dos motores clássicos de crescimento. Emprega muito, compra de muitos setores, gera renda em cadeia. Quando ela desacelera, não é só concreto que endurece, é a economia inteira.

O ponto central não é ideológico. É matemático. Se o Estado gasta mais do que arrecada de forma estrutural, alguém vai pagar essa conta. E normalmente quem paga primeiro é quem produz.

A pergunta que fica é simples, mas incômoda: até quando vamos tratar juros altos como solução definitiva, enquanto evitamos discutir o tamanho do gasto público?

Porque no fim das contas, meu amigo, não existe milagre macroeconômico. Existe conta. E ela sempre fecha, para alguém.