Menos trabalho, mais produtividade? O Brasil quer reduzir jornada, mas esqueceu dos robôs

Enquanto o Congresso discute o fim da escala 6x1, o Brasil opera com apenas 10 robôs para cada 10 mil trabalhadores, bem abaixo da média mundial. O debate sobre reduzir horas de trabalho ganha força política, mas a produtividade nacional cresce só 0,2% ao ano. Estamos prontos para trabalhar menos… ou estamos pulando etapas?

TECNOLOGIA

Bugiganga News

2/23/20262 min ler

black and white robot illustration
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Enquanto o Congresso aquece os motores para discutir o fim da escala 6x1, uma pergunta básica parece estar sendo varrida pra debaixo do tapete: o Brasil já produz o suficiente para trabalhar menos?

Segundo Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a resposta é um sonoro “não”. O presidente da entidade, José Velloso, jogou um balde de realidade fria no debate: o Brasil tem apenas 10 robôs para cada 10 mil trabalhadores. A média mundial? 162.

Traduzindo: estamos 93% atrás do padrão global em automação. E ainda queremos reduzir jornada como se estivéssemos na Alemanha 4.0.

Os números apresentados têm como base dados da International Federation of Robotics (IFR) e mostram que o Brasil não está só um pouco atrasado, está praticamente andando de carroça enquanto o resto do mundo testa carro autônomo.

Velloso argumenta que a produtividade brasileira cresceu apenas 0,2% ao ano entre 1981 e 2024. Quase nada. Para efeito de comparação, países que reduziram jornada primeiro investiram pesado em tecnologia, automação e ganho de eficiência. Aqui, a discussão parece começar pelo fim.

E o debate político esquenta. O presidente da Câmara, Hugo Motta, enviou à CCJ uma proposta para acabar com a escala 6x1, afirmando que estamos “em meio à revolução tecnológica”.

A pergunta que fica é: que revolução exatamente?

Se a maioria das indústrias brasileiras ainda opera com baixo nível de automação, falar em revolução tecnológica soa mais como discurso de campanha do que diagnóstico técnico. E o Congresso retoma o tema justamente em ano pré-eleitoral. Coincidência? Claro… como sempre.

O governo também prepara novo projeto para acelerar a votação e transformar a redução de jornada em bandeira política. Popular? Sem dúvida. Sustentável? Essa é outra conversa.

O ponto central não é ser contra trabalhar menos. Todo mundo quer qualidade de vida. A questão é simples: sem produtividade, alguém paga essa conta. E normalmente não é quem vota o projeto.

Países que reduziram jornada primeiro produziram mais por hora trabalhada. Aqui, produzimos pouco por hora e queremos cortar horas. Parece estratégia ou parece atalho?

O Brasil ocupa a 100ª posição global de produtividade por trabalhador, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Não é exatamente o clube da eficiência.

Então talvez a discussão não seja “6x1 ou 5x2”. Talvez a pergunta real seja: vamos investir pesado em automação e eficiência antes… ou vamos fingir que já fizemos isso?

Menos horas de trabalho são consequência de produtividade. Não mágica legislativa.

E agora fica aquela provocação incômoda: estamos debatendo o futuro do trabalho… ou só criando um slogan bonito para eleição?