Quem Aguenta Importar? O Brasil Fecha a Porta e Sobe o Muro do Aço

Entre antidumping, dólar nervoso e portos congestionados, importar aço deixou de ser oportunidade fácil e virou operação de elite. Quem não tiver estratégia, fica pelo caminho.

INDÚSTRIA

Bugiganga News

2/27/20263 min ler

Durante anos, importar aço era visto como aquele atalho esperto: corta custo aqui, negocia ali fora, traz navio cheio e vende com margem interessante. Simples, né? Só que não.

O Brasil decidiu subir o nível do jogo.

Em 2025, as importações de produtos siderúrgicos bateram média de 6,4 milhões de toneladas, alta de 20,5% sobre o ano anterior. O mercado doméstico sentiu. E quando o mercado doméstico sente, Brasília reage. Vieram cotas, fiscalização mais pesada e, em 2026, uma sequência de medidas antidumping que fizeram muita planilha suar frio.

As tarifas adicionais variam entre US$ 284 e US$ 709 por tonelada. Traduzindo para a vida real: dependendo do produto, a conta simplesmente deixa de fechar.

A justificativa? Defender a indústria nacional contra práticas consideradas desleais, principalmente de origem chinesa. O resultado imediato foi previsível: importadores começaram a olhar para Vietnã, Japão, Coreia do Sul e Taiwan como novos fornecedores. A China perde espaço em alguns segmentos. Mas a pergunta que fica é: isso resolve o problema estrutural ou só muda o endereço do navio?

Importar hoje não é mais “achar preço lá fora”. É operação cirúrgica.

Quem subestima o processo acaba pagando caro. Licença de Importação no Siscomex exige timing milimétrico. Perdeu a janela da cota? Adeus planejamento. Errou na classificação fiscal? Boa sorte discutindo na alfândega. Esqueceu do fluxo de caixa para recolher impostos na nacionalização? A carga vira refém no porto e porto brasileiro não é estacionamento gratuito.

Aliás, porto virou outro capítulo do drama. Atraso em inspeção, parametrização rigorosa, contêiner parado… sobreestadia correndo como taxímetro em corrida de aeroporto. Operadores mais experientes já usam DTA para transferir carga entre recintos e ganhar tempo. Quem não conhece o jogo, vira patrocinador do sistema.

E tem o dólar, claro. A volatilidade cambial é só a ponta do iceberg. Planejamento tributário, hedge cambial, custo financeiro do capital imobilizado… importar aço virou um exercício de inteligência integrada. Logística, tributário, regulatório e comercial precisam conversar. Se um falha, a margem evapora.

Mesmo assim, importar continua sendo estratégico para muitos setores industriais. Algumas linhas simplesmente não têm oferta competitiva local suficiente. Então a operação não morre — ela fica seletiva.

Os números de janeiro de 2026 já mostram o efeito: importações caíram cerca de 6,5% na comparação anual. A produção nacional recuou 1,4%, ainda refletindo demanda moderada. Mas o indicador de confiança do setor voltou a superar 50 pontos. Confiança sobe. Receita média por tonelada, porém, caiu cerca de 8% em 2025. Ou seja: o jogo ficou mais protegido, mas não necessariamente mais lucrativo.

E aí vem a parte interessante.

Siderúrgicas enxergam as medidas como restauração de equilíbrio. Importadores alertam que o custo sobe para a indústria consumidora. Quem paga essa conta no fim da cadeia? A pergunta é incômoda e necessária.

No caso do aço elétrico não orientado, usado em motores e geradores, as tarifas antidumping foram mantidas e até ampliadas para alguns produtores estrangeiros. A margem de arbitragem com produtos asiáticos diminui. O ambiente fica mais previsível, mas também mais fechado.

Importar aço no Brasil deixou de ser “opção barata” e virou estratégia de alto nível. Exige capital robusto, equipe técnica afiada e planejamento quase militar. Quem estrutura bem continua competitivo e mantém acesso ao mercado global. Quem não consegue… simplesmente sai do jogo.

No fim das contas, a grande questão não é se importar ficou difícil. É por que o Brasil ainda oscila entre proteger e competir, em vez de resolver o dilema da produtividade estrutural.

Porque proteger é uma estratégia. Mas crescer é outra história.